Elenco: Ricardo Darín, Jérémie Renier, Martina Gusman
Escrito por: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre, Pablo Trapero
Argentina, 2012
Nota no IMdB: 6,4
Buenos Aires europeia? Pablo Trapero assina como a capital portenha pode ser mais perto do Brasil do que a geografia já diz. Uma favela, ou villa, formada em torno de um hospital abandonado. O convívio da população com o crime organizado, jovens entregues às drogas e Às armas, a falta de solução para os sem-casa e o trabalho de religiosos e voluntários que impede a degradação completa.
Darín é Julian, um padre que tenta afastar jovens do crime. Gumán é Luciana, a assistente social que luta por moradia. E Renier é Nicolás, jovem padre que chega da selva peruana e desafia regras locais para amenizar o sofrimento e vive o conflito entre vocação e prazer.
Sem sensacionalismo com o drama alheio, "Elefante Branco" é o abandono da periferia e o trabalho idealista de quem se recusa a aceitar as misérias humana e do espírito.
Elenco: Ben Affleck, Brian Cranston, Alan Arkin, John Goodman, Clea Du Vall
Escrito por: Chris Terrio, baseado em artigos de Tony Mendez e Joshuah Bearman
EUA, 2012
Nota no IMdB: 7,9
Essa é a história do resgate de funcionários da embaixada dos EUA no Irã que se esconderam na casa do embaixador do Canadá após a invasão de insurgentes que fizeram 60 reféns. Sob supervisão de um agente secreto da CIA, se passam por produtores de cinema em busca de locações no deserto e conseguem burlar governo e exército por Teerã, inclusive no aeroporto, em 1980, dois anos depois da revolução. Surreal.
Surreal e verdadeiro, segundo o depoimento do agente secreto cuja experiência inspirou Ben Affleck a dirigir e a protagonizar esta história - Tony Mendez. Verdade também que os seis resgatados foram representados com grande semelhança física nas telas. E que, à parte alterações para não prejudicar o enredo, eles viveram o que foi retratado. Outro acerto de Affleck: a reprodução de cenas com rigor jornalístico. Um filme de espionagem no ritmo certo.
Vale o Oscar de melhor filme ganho em 2013? Não. Mas o contexto político americano, envolto em novas disputas com o Irã, faz o prêmio ter sentido - ainda mais com Michelle Obama abrindo o envelope na noite de entrega do Oscar. Constrangedor até. Argo levou em outras duas categorias, -roteiro adaptado e edição.
A imprensa iraniana bateu muito no filme, por considerá-lo uma distorção da história e fazer propaganda contra o país. Até porque a crise dos reféns da embaixada- que foram libertados depois 444 dias, foi o estouro de uma situação financiada pelos EUA desde os anos 1950, por conta do apoio ao xá Reza Pahlevi, ditador que empurrou a influência ocidental para a cultura islâmica.
Elenco: Jessica Chastain, Jason Clarke, Kyle Chandler, Joe Edgerton, Chris Pratt
Escrito por: Mark Boal
EUA, 2012
Nota no IMdB: 7.6
"A Hora Mais Escura" é a segunda visão da diretora Kathryn Bigelow sobre o terrorismo pós-11 de dezembro. Há dois anos, foi a primeira mulher a ganhar o Oscar de direção por "Guerra ao Terror", sobre a invasão ao Iraque. Com todas as credenciais possíveis, dessa vez, tratou da caçada a Osama Bin Laden, morto em 2011 em uma fortaleza em Abbotabad, no Paquistão.
Acusado de defender a tortura durante interrogatórios de prisioneiros para obter informações sobre a Al Qaeda, "A Hora Mais Escura" se presta justamente ao contrário. Trata métodos de tortura como artifícios comuns à polícia secreta americana, a despeito do discurso de "liberdade" propagandeado pelos EUA. O que fica evidente na falta de conflitos morais dos agentes por violentarem presos e até reclamações quando os métodos são proibidos após pressões de parlamentares. A presença do exército americano até hoje no Oriente Médio prova como os métodos repugnantes não resolveram a questão. E surge a dúvida: o assassinato de outro povo é justificável?
Com enredo sóbrio e sem recursos pirotécnicos que dão "glamour" a filmes de guerra, "A Hora Mais Escura" tem como protagonista a agente da CIA responsável por "caçar" Bin Laden durante dez anos. O cruzamento de informações, pistas falsas e a obsessão colocam Maya (Jessica Chastain) acima do próprio presidente Obama nas ações que levaram à morte do terrorista. Uma mulher que desafia os chefes na CIA para seguir instintos e chegar ao homem mais procurado do mundo - um papel incomum no imaginário dos serviços secretos e mesmo em filmes de guerra. Ainda mais quando se pensa que a mulher que inspirou a personagem ainda atua na agência e teve o perfil de durona e obsessiva confirmado por soldados que participaram da missão real.
Se a captura de Osama realmente aconteceu da forma como foi filmada, representou uma sucessão de eventos quase inacreditáveis. O terrorista mais procurado do mundo ficaria recluso em uma mansão, perto de um centro comercial, por muito tempo; nem tentou oferecer resistência nem tinha meios para tentar fugir; se a fortaleza era à prova de investigação, também deveria ser um labirinto para possibilitar fugas.
A CIA fornecer informações privilegiadas à cineasta e ao roteirista Mark Boal torna o peso político de "A Hora Mais Escura" ainda maior, dada a importância que recebeu como instrumento de propaganda pelo governo americano. Justamente por isso, as críticas que recebeu de parlamentares e do Pentágono praticamente tiraram suas chances de ser o grande favorito do Oscar 2013 - concorre em cinco categorias.
Apesar de abordar uma história amplamente conhecida, o filme se sustenta em 157 minutos sem cair em clichês. Bem diferente do arrastado e previsível Lincoln, de Steven Spielberg, que por razões não-estéticas pode levar estatuetas que cairiam melhor nas mãos de Bigelow.
Ted é apenas um urso falante de uma obra de ficção. Mas causou a maior polêmica na última semana, quando o deputado federal Protógenes Queiroz (PCdoB/SP) tentou elevar a classificação indicativa do filme para 18 anos e até mesmo proibir sua exibição no Brasil.
É que, desavisado, o parlamentar levou o filho de 11 anos para ver o filme, recomendado para maiores de 16. E se chocou com cenas que mostram o ursinho falando palavrão, bebendo cerveja e fumando maconha.
O assunto repercutiu após Protógenes reclamar no Twitter, e virou um dos trending topics da rede social durante a semana. Motivo de piada, o deputado desistiu de tentar proibir o filme, foi criticado por especialistas e críticos de cinema e provocou até uma manifestação do Ministério da Justiça sobre o assunto.
O certo é que o quer era para ser apenas uma comédia nos cinemas se tornou um dos hits do momento. A polêmica só contribuiu para encher as salas e prolongar a exibição do filme, em cartaz também em BH.
Ted (2012) foi escrito e dirigido por Seth McFarlane. Conta a história de John (Mark Wahlberg), um garoto sem amigos que deseja, em uma noite de Natal, que o ursinho ganhe vida. O desejo se realiza e eles crescem juntos. Aos 35 anos, John não consegue largar o brinquedo, que se transformou em um “vida mansa” desbocado e usuário de drogas. Uma comédia nonsense com bons recursos narrativos e referências a ícones dos anos 80, como Flash Gordon, e participação especial da cantora Norah Jones.
Uma pedida divertida nos cinemas de BH, proibida apenas para menores de 16 anos e deputados pretensamente politicamente corretos. Em cartaz nos shoppings Boulevard, BH, Diamond, Itaú Power, Minas, Pátio Savassi, Cidade e Del Rey.
To Rome with Love Direção: Woody Allen Elenco: Roberto Benigni, Jesse Eisenberg, Penélope Cruz, Elen Page, Woody Allen Escrito por: Woody Allen EUA, 2012 Nota no IMdB: 6.3
Woody Allen presta homenagem à capital italiana a partir do título de seu novo filme, "Para Roma com Amor". E o que no princípio se apresenta como sobreposição de clichês de um turista com um tour pela cidade se revela uma história inesperadamente ousada e inspirada. Na verdade, quatro histórias.
A opção por quatro enredos distintos que não se tocam não confunde. Assim como o viajante que não consegue conhecer a fundo uma cidade em pouco tempo, cada uma permanece na superfície dos conflitos, sem prejuízos para o filme.
Há espaço para o próprio Allen se reinventar como o eterno-personagem-neurótico; desta vez, como o sogro aposentado que vai a Roma conhecer a família do genro e se surpreende com o sogro da filha, um agente funerário com talento para a ópera. Em outra frente, um casal do interior vive uma comédia de erros digna da Cinecittà ao se envolver com uma prostituta (Penélope Cruz) e um ator de cinema.
O terceiro enredo coloca um casal à mercê da amiga 'fatal', o que seria previsível até demais, não fosse o apuro de Allen ao escalar Alec Baldwin no papel nonsense que funciona como um subconsciente dos envolvidos. De quebra, sobram críticas a posturas de pseudo-intelectuais (como já havia em "Meia Noite em Paris"). Na quarta história, Roberto Benini vive um modesto funcionário que vê a vida transformada, sem razão, pelos holofotes dos paparazzi.
As críticas incrivelmente bem humoradas à arte contemporânea (nas cenas no chuveiro), ao absurdo da fama instantânea e despropositada e às estratégias pseudo-intelectuais são trunfos de um Allen que, como é dito por sua mulher, "não possui ego, superego e id, mas três id´s". Se em "Meia Noite em Paris" o diretor presta tributo à literatura da Belle Epóque, desta vez as lembranças se dirigem à opera e ao cinema italianos. Um justo agradecimento aos países que inspiraram Woody Allen a renovar sua carreira. Junto do 'inglês' "Matchpoint", e da saga em Paris, "Para Roma com Amor" é sua ideia mais fértil em solo europeu.
Afonso Poyart levou para "2 Coelhos", seu longa de estreia, referências que aprendeu a admirar em outros filmes e suportes e os traduziu em uma história de ação sobre corrupção e moral. Estética publicitária, falso documentário, gráficos de videogames, slow motions, inversão do narrador. Tudo isso e mais um pouco, sem um foco específico e muita distração para o olhar, e funciona. Sem beirar a superficialidade, o diretor atrai o público e justifica os cortes ágeis e diferentes tomadas com o nível de ação que propõe na tela.
Em um contexto no qual todos são corruptores e corrompíveis em potencial, questões de fundo ético perdem espaço para a lógica 'dos fins que justificam os meios' e a crítica ácida ao funcionamento do legislativo, judiciário e Ministério Público brasileiros funciona, assim como sua relação entre os setores da sociedade - no morro ou no asfalto.
Edgar (Fernando Alves Pinto) narra a primeira parte do filme, quando apresenta sua intimidade com a tecnologia e a falta de tino com as convenções sociais. Aos poucos, revela as relações entre o deputado Jader (Roberto Marchese), a promotora Julia (Alessandra Negrini) e Maicon (Marat Descartes). Thaíde é Velinha, um motoboy que vive de golpes e furtos e que ajuda Edgar em seu plano, digamos, de atingir dois coelhos com 'uma caixa d´água', como provoca o poster do longa. Walter (Caco Ciocler) é o professor universitário que trabalha no restaurante do pai de Edgar. Há ainda a facção responsável por um sequestro - o enredo funciona, apesar de algumas soluções simplórias.
A narrativa ganha corpo quando o presente alcança Edgar, que abandona a narração e passa a ser o foco dos conflitos. É quando o ritmo de '2 coelhos' se desenvolve da melhor maneira e as costuras do roteiro ganham mais sentido. Com destaque para as estratégias de Alessandra Negrini para espantar a ansiedade, como um parêntese bem posicionado em uma frase.
'2 Coelhos' leva estética exagerada e ritmo alucinante, mas não soa superficial nem alterna referências esvaziadas. O enredo confunde e deixa lacunas propositadamente, mas não é incompreensível. Afonso Poyart leva para a tela o que aprendeu a assistir e a admirar em outros cineastas e na televisão. Um gênero em certa medida inovador para o cinema nacional, que se fortalece ao adquirir experiências visuais diversas em circuito comercial.