Elenco: Wagner Moura, Mariana Lima, Brás Antunes, Lima Duarte
Escrito por:Luciano Moura, Elena Soarez
Brasil, 2013
Nota no IMdB: 6,5
Pedro (Brás Antunes) tinha 15 anos quando preparou uma fuga de casa durante uma das infinitas brigas dos pais, Theo (Wagner Moura) e Branca (Mariana Lima). A falta de entendimento em casa, que ele também não vai cobrar, norteia suas escolhas por uma afinidade distante.
O desespero do pai em sua busca, que pavimenta a história, dá boa medida de como acertar em um drama sem conflitos fora do lugar ou exageros sentimentais. Estética e narrativamente, a busca é também a descoberta de um homem ao seguir rastros do jovem pelo interior.
O reconhecimento da individualidade e da noção de família e afeto nesta espécie de road-movie semi-urbano bem realizado envolve premissas a princípio estranhas, mas bem tramadas e que dão uma noção de originalidade ao filme. Como reunir balsas, cavalos, travessias, lavouras, partos, borracharias, croquis e festivais hippies em uma única direção.
Afonso Poyart levou para "2 Coelhos", seu longa de estreia, referências que aprendeu a admirar em outros filmes e suportes e os traduziu em uma história de ação sobre corrupção e moral. Estética publicitária, falso documentário, gráficos de videogames, slow motions, inversão do narrador. Tudo isso e mais um pouco, sem um foco específico e muita distração para o olhar, e funciona. Sem beirar a superficialidade, o diretor atrai o público e justifica os cortes ágeis e diferentes tomadas com o nível de ação que propõe na tela.
Em um contexto no qual todos são corruptores e corrompíveis em potencial, questões de fundo ético perdem espaço para a lógica 'dos fins que justificam os meios' e a crítica ácida ao funcionamento do legislativo, judiciário e Ministério Público brasileiros funciona, assim como sua relação entre os setores da sociedade - no morro ou no asfalto.
Edgar (Fernando Alves Pinto) narra a primeira parte do filme, quando apresenta sua intimidade com a tecnologia e a falta de tino com as convenções sociais. Aos poucos, revela as relações entre o deputado Jader (Roberto Marchese), a promotora Julia (Alessandra Negrini) e Maicon (Marat Descartes). Thaíde é Velinha, um motoboy que vive de golpes e furtos e que ajuda Edgar em seu plano, digamos, de atingir dois coelhos com 'uma caixa d´água', como provoca o poster do longa. Walter (Caco Ciocler) é o professor universitário que trabalha no restaurante do pai de Edgar. Há ainda a facção responsável por um sequestro - o enredo funciona, apesar de algumas soluções simplórias.
A narrativa ganha corpo quando o presente alcança Edgar, que abandona a narração e passa a ser o foco dos conflitos. É quando o ritmo de '2 coelhos' se desenvolve da melhor maneira e as costuras do roteiro ganham mais sentido. Com destaque para as estratégias de Alessandra Negrini para espantar a ansiedade, como um parêntese bem posicionado em uma frase.
'2 Coelhos' leva estética exagerada e ritmo alucinante, mas não soa superficial nem alterna referências esvaziadas. O enredo confunde e deixa lacunas propositadamente, mas não é incompreensível. Afonso Poyart leva para a tela o que aprendeu a assistir e a admirar em outros cineastas e na televisão. Um gênero em certa medida inovador para o cinema nacional, que se fortalece ao adquirir experiências visuais diversas em circuito comercial.
Elenco: Hubert, Luana Piovanni, Marcelo Adnet, Pedro Bial, Rui Castro
Escrito por: Hubert, Marcelo Madureira
Brasil, 2011
Nota no IMdB: (não cadastrado)
Você já saiu do cinema com a impressão de que acabou de assistir a um dos piores filmes da vida? Este é "As aventuras de Agamenon, o repórter", nova 'comédia' da Globo Filmes que se apresenta como um documentário sobre o jornalista fictício Agamenon Pereira Mendes. Criação de Hubert e Marcelo Madureira, do Casseta e Planeta, Agamenon realmente assinou uma coluna no jornal O Globo por mais de 20 anos.
O filme chega a parecer trabalho de artes de escola primária. Os alunos fazem colagens de personagens históricos com as próprias fotos e tentam apresentar para a sala uma história engraçada. Nenhuma piada durante os 70 minutos de exibição funciona e o filme desperdiça as participações especiais de Rui Castro, Caetano Veloso e Jô Soares, como eles mesmos ( e já sacaneados na coluna de O Globo), que dão depoimentos sobre o falso repórter na tentativa documental frustrada. Pedro Bial (vergonha alheia do ano) como condutor do documentário e Marcelo Adnet e Hubert como Agamenon. Alguns filmes são apenas ruins (neste blog, Cilada.com, por exemplo). Outros, não valem a resenha.
Alguma semelhança com o fraquíssimo "Borat" e uma tentativa muito frustrada de fazer piadas com cunho sexual vulgar o tempo todo. A ridícula pretensão de testemunhar os fatos do último século à la "Forrest Gump". Se há alguma pergunta a ser feita sobre o filme, ela tem que ser esta: como Fernanda Montenegro aceitou narrá-lo? Em entrevista à Folha de S. Paulo, o diretor Victor Lopes disse que não queria "cair no alegórico para não ser trash demais".
"Agamenon" está em cartaz em 250 salas pelo Brasil e custou R$ 6 milhões, cerca de R$ 4,5 milhões oriundos de leis de incentivo fiscal. É a aposta da Globo Filmes para fazer o brasileiro rir neste verão.
Bruna Surfistinha Diretor: Marcus Baldini Elenco: Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Critina Lago, Fabiula Nascimento. Escrito por: José de Carvalho, Homero Olivetto e Antônia Pellegrino. Nota no IMDb: 6.1
O fim-de-semana de estreia de "Bruna Surfistinha" nos cinemas levou o filme à segunda melhor bilheteria do ano para os primeiros dias em cartaz (considerando também filmes americanos). 400 mil pessoas assistiram ao longa de Marcus Baldini nos três primeiros dias, representando um marco no cinema nacional. Principalmente se for levado em conta que a produção já tem a sétima melhor bilheteria da Retomada do cinema brasileiro (a partir do fim dos anos 90), mesmo sem a chancela da Globo Filmes. Talvez uma das únicas bilheterias de sucesso sem o apoio de mídia da Globo Filmes, que costuma garantir o sucesso de muitas produções.
À parte questões empresariais, se você já conhece a história de Raquel Pacheco, menina de classe média que larga a vida na casa dos pais para ganhar dinheiro como garota de programa, não vai se surpreender muito com o filme. Principalmente se já tiver lido o "Doce Veneno do Escorpião", livro biográfico escrito pela protagonista em 2005, com o jornalista Jorge Tarquini, no qual detalha razões para suas escolhas e o contato com diversos clientes. Está tudo ali: a indiferença com a família adotiva - principalmente com o pai e o irmão -, a falta de amigos e de interesse na escola - e conflitos nos primeiros contatos com a sexualidade -, a decisão de virar garota de programa durante uma busca por emprego e a dificuldade para se habituar à profissão.
Deborah Secco, no papel de Bruna, nome adotado por Raquel - que mais tarde ganharia a outra alcunha por ser a Bruna, "aquela que parece uma surfistinha", manda no filme. Todas as atenções estão voltadas para ela o tempo todo, e a atriz se sente bastante à vontade com isto. Mesmo em cenas constantes de nudez e sexo, a Deborah demonstra confiança e segurança para conduzir o papel. Até em cenas mais fortes, quando a garota exagera nas drogas, Deborah sabe transitar neste universo e não deixa o ritmo do filme cair. Atuação muito firme.
O objetivo é o mesmo de qualquer garota que se prostitui – ganhar dinheiro. Mas, por nunca ter passado fome, por ter sido garota de classe média a abandonar o conforto da casa dos pais para fazer programas, há um interesse das outras mulheres por entender os motivos de Bruna e uma vontade de clientes por conhecê-la. Com a fama que conquista no meio, faz um blog que vira febre na internet. Ao comentar a atuação dos homens e expor seus pensamentos, revela que uma garota de programa, afinal, tem expressões próprias e sabe, também, ouvir quem a paga. Boa parte dos que a procuram só querem atenção: não só sexual, mas como fuga da vida que levam.
Para quem pensa em Bruna Surfistinha como um caso limite, de uma garota que largou tudo para viver de sexo por prazer ao que fazia, o filme desmascara essa visão. Ela está lá por dinheiro. Claro que teria oportunidades na vida que suas colegas mais pobres nem sonhariam, mas a expectativa por ganhar dinheiro rápido a fez tomar tal decisão. E mantê-la a qualquer custo. As garotas com quem convivia faziam questão de dizer que, à parte os motivos que as levaram para a prostituição, teriam outras profissões logo que pudessem largar a sobrevivência pelo sexo. A decadência de Bruna acompanha a trajetória com as drogas, em especial, a cocaína. Todo o dinheiro ganho se esvai com dividas em compras luxuosas e com o pó, numa realidade bem conhecida nos grandes centros.
A degradação moral é escancarada em cada cena – não no sentido moralista da questão, mas na exposição a condições adversas e à perda da intimidade a que mulheres se sujeitam em busca de um sustento – mas não é explorada pela personagem. Tudo é tratado com bastante naturalidade, mesmo em momentos críticos que gerariam questionamentos sobre suas escolhas. A visão do filme – condizente com a do livro - não carrega este conflito; sua decisão já foi feita e Bruna deveria ir até o fim. Ou até quando quisesse parar, abandonar o personagem e começar uma nova vida, uma nova Raquel, anos depois. Todo mundo sabe que isso foi feito e, a obra conta, em parte, quais caminhos ela traçou.