Elenco: Oscar Isaac, Carey Mulligan, John Goodman, Justin Timberlake
Escrito por: Joel Cohen, Ethan Cohen
EUA, 2013
Nota no IMdB: 7,8
Todos querem ser Bob Dylan, mesmo antes de existir Bob Dylan. Só um será de fato, e poucos receberão aplausos a atenção. Não será Llewin Davis um desses. A saga de um cantor folk em busca de reconhecimento era um belo argumento que os irmãos Cohen tinham em mãos e conseguiram arruinar. Para quem esperava algum eco de "Coração Louco" ou "O Último Elvis" para a decadência precoce, Llewin Davis decepciona por não despertar emoções. Tão frio quanto o frio ao carregar o violão por ruas cobertas de neve. Um erro: a barba é muito bem feita para um pedestre errante.
Talvez fosse intencional: Davis é um cantor prensado pelo acaso contra todas as paredes. Canta bem, toca bem e perdeu o companheiro quando a dupla poderia estourar. É estourado quando não precisa e ninguém dá a mínima. Nem os produtores que poderiam pagá-lo. Llewin Davis não sabe diferenciar os gatos.
Elenco: Chirstian Bale, Jenniffer Lawrence, Amy Adams, Bradley Cooper, Robert de Niro
Escrito por: Eric Warren Singer, David O. Russell
EUA, 2013
Nota no IMdB: 7,6
Christian Bale barrigudo, calvo, pregando o cabelo postiço com cola daqueles potes antigos. O figurino extravagante dos anos 1970, o brilho do sonho americano, o tributo aos golpes quase românticos. Os comparsas pegos em flagrante que passam a contribuir com o FBI. O agente federal ansioso para ampliar a investigação. A mulher traída. Um roteiro com sobressaltos. O escritório do advogado. Sobressaltos.
Pequenas homenagens aos ambientes de Scorsese. A cena do banheiro que pode dar a Jenniffer Lawrence o segundo Oscar em um filme não exatamente marcante, ainda que premiado?
Spike Jonze imagina uma interação "viva" entre dispositivos e humanos no futuro próximo. A inteligência artificial vai levar as máquinas a um desenvolvimento baseado na própria experiência, combinando a programação original com o contato com o usuário.
Além de gadgets vestíveis e ordenados por voz, os "sistemas operacionais" são capazes de desenvolver "sentimentos". Joaquin Phoneix é um escritor de cartas profissional - logo cartas (!). Ele instala um sistema e passa a conviver com a voz de Samantha (Johansson), que passa a ter acesso a todos os seus arquivos.
Basta um fone de ouvido para ter acesso à voz, programada para se instruir a partir de leituras de metadados e do "contato" com outros sistemas e usuários. É aí que Samantha se "humaniza" e se torna capaz tanto de criar melodias ao piano quanto de entender paixões. E aí que os humanos perdem a capacidade de escrever à mão e se tornam capazes de amar máquinas. A ideia já está contida no título: o pronome her está no lugar de it.
Enquanto pessoas andam pelas ruas absorvidas por seus sistemas operacionais - como acontece com celulares e apps hoje - Jonze propõe reflexões: a inteligência crescente dos dispositivos pode fazê-los preferir abandonar o poder? Logo a máquina sentirá compaixão pela espécie?
Elenco: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Alec Baldwin, Peter Sarsgaard
Escrito por: Woody Allen
EUA, 2013
Nota no IMdB: 7,7
Quem escreveu por aí que o sol de São Francisco fez muito bem para Woody Allen? "Blue Jasmine" está bem longe da qualidade vista na turnê europeia do diretor americano, o que não quer dizer que será facilmente esquecido. Provavelmente, apenas confundido daqui a algum tempo com outros filmes medianos de Allen.
Cate Blanchett é a nova rica apaixonada que assina todos os papeis para o marido milionário e, um dia, é obrigada a reconhecer que isso a fez perder tudo. Ela também é a filha pródiga que retorna para a casa da irmã por absoluta falta de meios e ainda luta contra a depressão. É o típico sujeito que quer construir para si uma imagem refinada, distante do kitsch familiar.
Sally Hawkins é a irmã que se conformou com uma vida no limite para criar as crianças e que não deixa Jasmine se esquecer de onde veio. A reaproximação vai mostrar, no entanto, que ela ainda tem tempo e capacidade para fazer suas escolhas. Alec Baldwin, todos vão saber desde o início, é o golpista que usa o sistema financeiro para aperfeiçoar as ações.
Uma construção que Allen conhece bem: quando a história atrai a curiosidade, corte para uma longa tomada no passado para entender como se chegou até ali. 1h38 com o domínio completo da câmera e do ritmo, apesar do momento sem muita inspiração. Nada mal para um diretor que produz incansavelmente ao menos um filme por ano desde 1981 - antes disso, só não lançou nada em 68, 70 e 74 desde sua estreia.
Elenco: Ben Affleck, Brian Cranston, Alan Arkin, John Goodman, Clea Du Vall
Escrito por: Chris Terrio, baseado em artigos de Tony Mendez e Joshuah Bearman
EUA, 2012
Nota no IMdB: 7,9
Essa é a história do resgate de funcionários da embaixada dos EUA no Irã que se esconderam na casa do embaixador do Canadá após a invasão de insurgentes que fizeram 60 reféns. Sob supervisão de um agente secreto da CIA, se passam por produtores de cinema em busca de locações no deserto e conseguem burlar governo e exército por Teerã, inclusive no aeroporto, em 1980, dois anos depois da revolução. Surreal.
Surreal e verdadeiro, segundo o depoimento do agente secreto cuja experiência inspirou Ben Affleck a dirigir e a protagonizar esta história - Tony Mendez. Verdade também que os seis resgatados foram representados com grande semelhança física nas telas. E que, à parte alterações para não prejudicar o enredo, eles viveram o que foi retratado. Outro acerto de Affleck: a reprodução de cenas com rigor jornalístico. Um filme de espionagem no ritmo certo.
Vale o Oscar de melhor filme ganho em 2013? Não. Mas o contexto político americano, envolto em novas disputas com o Irã, faz o prêmio ter sentido - ainda mais com Michelle Obama abrindo o envelope na noite de entrega do Oscar. Constrangedor até. Argo levou em outras duas categorias, -roteiro adaptado e edição.
A imprensa iraniana bateu muito no filme, por considerá-lo uma distorção da história e fazer propaganda contra o país. Até porque a crise dos reféns da embaixada- que foram libertados depois 444 dias, foi o estouro de uma situação financiada pelos EUA desde os anos 1950, por conta do apoio ao xá Reza Pahlevi, ditador que empurrou a influência ocidental para a cultura islâmica.
Elenco: Jessica Chastain, Jason Clarke, Kyle Chandler, Joe Edgerton, Chris Pratt
Escrito por: Mark Boal
EUA, 2012
Nota no IMdB: 7.6
"A Hora Mais Escura" é a segunda visão da diretora Kathryn Bigelow sobre o terrorismo pós-11 de dezembro. Há dois anos, foi a primeira mulher a ganhar o Oscar de direção por "Guerra ao Terror", sobre a invasão ao Iraque. Com todas as credenciais possíveis, dessa vez, tratou da caçada a Osama Bin Laden, morto em 2011 em uma fortaleza em Abbotabad, no Paquistão.
Acusado de defender a tortura durante interrogatórios de prisioneiros para obter informações sobre a Al Qaeda, "A Hora Mais Escura" se presta justamente ao contrário. Trata métodos de tortura como artifícios comuns à polícia secreta americana, a despeito do discurso de "liberdade" propagandeado pelos EUA. O que fica evidente na falta de conflitos morais dos agentes por violentarem presos e até reclamações quando os métodos são proibidos após pressões de parlamentares. A presença do exército americano até hoje no Oriente Médio prova como os métodos repugnantes não resolveram a questão. E surge a dúvida: o assassinato de outro povo é justificável?
Com enredo sóbrio e sem recursos pirotécnicos que dão "glamour" a filmes de guerra, "A Hora Mais Escura" tem como protagonista a agente da CIA responsável por "caçar" Bin Laden durante dez anos. O cruzamento de informações, pistas falsas e a obsessão colocam Maya (Jessica Chastain) acima do próprio presidente Obama nas ações que levaram à morte do terrorista. Uma mulher que desafia os chefes na CIA para seguir instintos e chegar ao homem mais procurado do mundo - um papel incomum no imaginário dos serviços secretos e mesmo em filmes de guerra. Ainda mais quando se pensa que a mulher que inspirou a personagem ainda atua na agência e teve o perfil de durona e obsessiva confirmado por soldados que participaram da missão real.
Se a captura de Osama realmente aconteceu da forma como foi filmada, representou uma sucessão de eventos quase inacreditáveis. O terrorista mais procurado do mundo ficaria recluso em uma mansão, perto de um centro comercial, por muito tempo; nem tentou oferecer resistência nem tinha meios para tentar fugir; se a fortaleza era à prova de investigação, também deveria ser um labirinto para possibilitar fugas.
A CIA fornecer informações privilegiadas à cineasta e ao roteirista Mark Boal torna o peso político de "A Hora Mais Escura" ainda maior, dada a importância que recebeu como instrumento de propaganda pelo governo americano. Justamente por isso, as críticas que recebeu de parlamentares e do Pentágono praticamente tiraram suas chances de ser o grande favorito do Oscar 2013 - concorre em cinco categorias.
Apesar de abordar uma história amplamente conhecida, o filme se sustenta em 157 minutos sem cair em clichês. Bem diferente do arrastado e previsível Lincoln, de Steven Spielberg, que por razões não-estéticas pode levar estatuetas que cairiam melhor nas mãos de Bigelow.
Ted é apenas um urso falante de uma obra de ficção. Mas causou a maior polêmica na última semana, quando o deputado federal Protógenes Queiroz (PCdoB/SP) tentou elevar a classificação indicativa do filme para 18 anos e até mesmo proibir sua exibição no Brasil.
É que, desavisado, o parlamentar levou o filho de 11 anos para ver o filme, recomendado para maiores de 16. E se chocou com cenas que mostram o ursinho falando palavrão, bebendo cerveja e fumando maconha.
O assunto repercutiu após Protógenes reclamar no Twitter, e virou um dos trending topics da rede social durante a semana. Motivo de piada, o deputado desistiu de tentar proibir o filme, foi criticado por especialistas e críticos de cinema e provocou até uma manifestação do Ministério da Justiça sobre o assunto.
O certo é que o quer era para ser apenas uma comédia nos cinemas se tornou um dos hits do momento. A polêmica só contribuiu para encher as salas e prolongar a exibição do filme, em cartaz também em BH.
Ted (2012) foi escrito e dirigido por Seth McFarlane. Conta a história de John (Mark Wahlberg), um garoto sem amigos que deseja, em uma noite de Natal, que o ursinho ganhe vida. O desejo se realiza e eles crescem juntos. Aos 35 anos, John não consegue largar o brinquedo, que se transformou em um “vida mansa” desbocado e usuário de drogas. Uma comédia nonsense com bons recursos narrativos e referências a ícones dos anos 80, como Flash Gordon, e participação especial da cantora Norah Jones.
Uma pedida divertida nos cinemas de BH, proibida apenas para menores de 16 anos e deputados pretensamente politicamente corretos. Em cartaz nos shoppings Boulevard, BH, Diamond, Itaú Power, Minas, Pátio Savassi, Cidade e Del Rey.
To Rome with Love Direção: Woody Allen Elenco: Roberto Benigni, Jesse Eisenberg, Penélope Cruz, Elen Page, Woody Allen Escrito por: Woody Allen EUA, 2012 Nota no IMdB: 6.3
Woody Allen presta homenagem à capital italiana a partir do título de seu novo filme, "Para Roma com Amor". E o que no princípio se apresenta como sobreposição de clichês de um turista com um tour pela cidade se revela uma história inesperadamente ousada e inspirada. Na verdade, quatro histórias.
A opção por quatro enredos distintos que não se tocam não confunde. Assim como o viajante que não consegue conhecer a fundo uma cidade em pouco tempo, cada uma permanece na superfície dos conflitos, sem prejuízos para o filme.
Há espaço para o próprio Allen se reinventar como o eterno-personagem-neurótico; desta vez, como o sogro aposentado que vai a Roma conhecer a família do genro e se surpreende com o sogro da filha, um agente funerário com talento para a ópera. Em outra frente, um casal do interior vive uma comédia de erros digna da Cinecittà ao se envolver com uma prostituta (Penélope Cruz) e um ator de cinema.
O terceiro enredo coloca um casal à mercê da amiga 'fatal', o que seria previsível até demais, não fosse o apuro de Allen ao escalar Alec Baldwin no papel nonsense que funciona como um subconsciente dos envolvidos. De quebra, sobram críticas a posturas de pseudo-intelectuais (como já havia em "Meia Noite em Paris"). Na quarta história, Roberto Benini vive um modesto funcionário que vê a vida transformada, sem razão, pelos holofotes dos paparazzi.
As críticas incrivelmente bem humoradas à arte contemporânea (nas cenas no chuveiro), ao absurdo da fama instantânea e despropositada e às estratégias pseudo-intelectuais são trunfos de um Allen que, como é dito por sua mulher, "não possui ego, superego e id, mas três id´s". Se em "Meia Noite em Paris" o diretor presta tributo à literatura da Belle Epóque, desta vez as lembranças se dirigem à opera e ao cinema italianos. Um justo agradecimento aos países que inspiraram Woody Allen a renovar sua carreira. Junto do 'inglês' "Matchpoint", e da saga em Paris, "Para Roma com Amor" é sua ideia mais fértil em solo europeu.
Shame Direção: Steve McQueen Elenco: Michael Fassbender, Carey Mullingan, James Badge, Nicole Beharie Escrito por: EUA, 2011 Nota no IMdB: 7.6
Brandon (Fassbender) tem um olhar duro, frio e distante de qualquer afeto. Viciado em sexo, não conhece qualquer manifestação de carinho ou intimidade, ainda que se relacione de modo extremo com seu corpo e com as mulheres desconhecidas com quem se depara por um tempo breve e intenso.
Steve McQueen aposta em sequências carregadas de tensão, que exploram constantemente a nudez, tratada sem sensualidade ou paixão. Como um drogado dependente de substâncias químicas, ele encontra no sexo casual a realização transitória do prazer através de seu vício e suas expressões durante o ato sexual lembram antes o sofrimento e a ânsia por reforçar essa busca desenfreada que o prazer pelo contato com o feminino.
Este ciclo frio se rompe com a chegada da irmã, Sissy (Mullingan), que escancara conflitos e o faz lembrar, ainda que bem longe, alguma manifestação afetiva. A desordem que esta presença inesperada e contra sua vontade provoca alterações em seus padrões reflexivos e o abre a certa distinção entre vergonha, reconhecimento e busca desenfreada pelo prazer.
As marcas nos braços de Sissy apontam para sofrimentos extremos de ordem emocional, mas McQueen não precisa contextualizar o passado dos irmãos para construir seus transtornos de forma clara e convincente. A constatação de Brandon, apenas com olhares, antecipa um certo descrédito pela mudança. Uma frase da irmã, entretanto, aponta para alguma esperança. "Nós não somos maus, apenas viemos de um lugar confuso". A garota insegura traz a força escondida - que se manifesta, por exemplo, quando interpreta "New York, New York" com um andamento lento, sublime e marcante.
Quando tenta sair com uma colega de trabalho (Beharie), no primeiro encontro minimamente afetivo em sabe-se lá quanto tempo, o corpo de Brandon falha, num bloqueio de ordem emocional que o impede de associar o sexo a qualquer situação de carinho ou cumplicidade. O desperta apenas a adrenalina de casos fugazes e anônimos, ainda que busque inconscientemente o sofrimento físico ao provocar brigas na rua ou se dispor a experiências sexuais que não condizem com suas opções, em nome de satisfazer temporariamente um vício irrefreável.
Há, contudo, a chama de uma esperança - o despertar para a condição de dependência, disparado pelo próprio reconhecimento em companhia da irmã, é sempre um primeiro passo para enfrentá-la, e não apenas se submeter.
Elenco: Brad Pitt, Jessica Chastain, Sean Penn, Hunter McCracken
Escrito por: Terence Malick
EUA, 2011
Nota no IMdB: 7,0
"A Árvore da Vida" aborda, essencialmente, de maneira delicada e dedicada, o ato da criação e a perda da inocência. O autoritarismo de O´Brien (Pitt) na criação dos filhos, num subúrbio americano nos anos 1960 e as marcas desta criação em suas consciências. As pressões - principalmente sobre o mais velho - a frustração do pai com os próprios caminhos e a criação rígida das crianças.
Terence Malick escreveu e dirigiu esta história que surpreende pelos intertítulos que carrega e pela beleza plástica das imagens abstratas. Há espaço para a gênese do universo, o movimento das marés, erupções vulcânicas, a vida marinha, a explosão das estrelas e muitas outras sequências impressionantes, entrecortadas por diálogos emblemáticos que contextualizam as metáforas e elipses aparentemente absurdas.
Após permitir-se divagações que duram mais de 20 minutos, Malick volta à história da família, marcada por dramas e pressões. O diretor reforça a dimensão da descoberta da experiência em cada tomada, como nas sequências em que os pais apresentam a linguagem aos garotos ou seus primeiros atos de delinquência juvenil.
A partir de valores religiosos, católicos, Malick aborda de modo suave a transcendência do ser e o amor universal, em cenas absolutamente reflexivas, que chamam lembram a duração ínfima do ser humano no planeta e seu tamanho insignificante em relação ao universo. Apesar disso, um universo complexo, representativo e único.
Malick escreveu uma bela história sobre o potencial do amor e a gravidade da existência e teve em mãos uma história bem perto de poder ser considerada uma das mais impressionantes em muito tempo. Pena que ela se prende, em vários momentos, ao ritmo arrastado que diminui a potência de suas cenas-chave, que evocam e ao mesmo tempo exasperam o espectador.
Os diálogos no lugar certo, a produção impecável e um argumento consistente colocaram um material raro nas mãos de Malick, que não conseguiu dosá-los da melhor maneira. Ainda assim, as escolhas não prejudicam. Some-se a isso á atuação segura de Jessica Chastain e ao olhar impressionante deHunter McCracken, que interpreta Jack (Penn) quando criança.
Cortes e flashbacks bem editados ajudam a compreender em blocos a história, enquanto um dos protagonistas, anos depois, relembra pontos da infância e etapas de seu crescimento em família, evocando o pai centralizador, a mãe conciliadora e os irmãos, também descobridores enquanto autores da própria existência.
"A Árvore da Vida" tem repertório para figurar entre os grandes filmes da década, mas é prejudicado pelo excesso de preciosismo dos realizadores. Impressiona, mas cai em um anticlímax constante. Vale, ainda, uma menção honrosa para os últimos minutos, reveladores sobre a condição humana e sua relação com o universo e o eterno. Uma mensagem de esperança, enfim.
Elenco: Ryan Gosling, Carey Mullingan, Bryan Cranston, Kaden Leos Albert Brooks
Escrito por: Hossein Amini, baseado em livro de James Sallis
EUA, 2011
Nota no IMdB: 8,0
Se o Oscar 2012 premiou homenagens aos primórdios do cinema, a última edição de Cannes preferiu destacar um cinema de gênero, numa espécie de filme b com estética dos anos 80/90. Melhor filme da mostra competitiva de 2011, "Drive" traz momentos distintos e igualmente perturbadores.
Ryan Gosling não tem nome: é apenas o 'driver' dublê de filmes de ação durante o dia e o 'driver' calculista e silencioso de gangues à noite. Vive em um ambiente seco, solitário e com ecos vintage, ajudados pela trilha de rock alternativo e por tomadas de uma Los Angeles sem glamour e áspera. É um filme de ação com pouca movimentação de fato e que se sustenta pelo contexto. A primeira metade diz respeito ao silêncio e aos olhares questionadores. Olhares pelo retrovisor, com um palito entre os dentes.
Quando envolve-se com gangues de fato, o protagonista ganha ares de nonsense e protagoniza cenas de violência gratuita dignas de Tarantino. A ruptura na história causa um excesso premeditado, oposto aos movimentos de espera do início, que fazem de "Drive" um filme provocador.
A frieza do justiceiro em oposição ao homem entregue facilmente pela descoberta do sentimento pela vizinha Irene (Mulligan) provoca certas questões: ele se consumia em adrenalina porque precisava de atenção? Basta uma relação sincera e desinteressada para derrubar a barreira que o impede de conhecer a afetividade? Seu relacionamento com Benicio (Leos), filho de Irene, pode responder a isto. Seu instinto de proteção e afeto atinge este momento, numa superação do egoísmo que o cerca. Ainda assim, o roteiro traz clichês básicos que impedem "Drive" de ser um grande filme de fato.
Apesar da violência gratuita que interrompe uma estética impecável, "Drive" é uma incursão bem-sucedida (e a primeira) de Winding Refn no cinema comercial. É também um filme para consagrar Ryan Gosling, que surgiu no mercado em comédias românticas e blockbusters de ação. Ele definitivamente ganha o público como o motorista alucinado que usa a mesma jaqueta branca com um escorpião dourado nas costas - que vai se sujando de graxa e sangue ao longo da história, sem que isso o incomode em algum momento.