Elenco: Wagner Moura, Mariana Lima, Brás Antunes, Lima Duarte
Escrito por:Luciano Moura, Elena Soarez
Brasil, 2013
Nota no IMdB: 6,5
Pedro (Brás Antunes) tinha 15 anos quando preparou uma fuga de casa durante uma das infinitas brigas dos pais, Theo (Wagner Moura) e Branca (Mariana Lima). A falta de entendimento em casa, que ele também não vai cobrar, norteia suas escolhas por uma afinidade distante.
O desespero do pai em sua busca, que pavimenta a história, dá boa medida de como acertar em um drama sem conflitos fora do lugar ou exageros sentimentais. Estética e narrativamente, a busca é também a descoberta de um homem ao seguir rastros do jovem pelo interior.
O reconhecimento da individualidade e da noção de família e afeto nesta espécie de road-movie semi-urbano bem realizado envolve premissas a princípio estranhas, mas bem tramadas e que dão uma noção de originalidade ao filme. Como reunir balsas, cavalos, travessias, lavouras, partos, borracharias, croquis e festivais hippies em uma única direção.
Elenco: Jessica Chastain, Jason Clarke, Kyle Chandler, Joe Edgerton, Chris Pratt
Escrito por: Mark Boal
EUA, 2012
Nota no IMdB: 7.6
"A Hora Mais Escura" é a segunda visão da diretora Kathryn Bigelow sobre o terrorismo pós-11 de dezembro. Há dois anos, foi a primeira mulher a ganhar o Oscar de direção por "Guerra ao Terror", sobre a invasão ao Iraque. Com todas as credenciais possíveis, dessa vez, tratou da caçada a Osama Bin Laden, morto em 2011 em uma fortaleza em Abbotabad, no Paquistão.
Acusado de defender a tortura durante interrogatórios de prisioneiros para obter informações sobre a Al Qaeda, "A Hora Mais Escura" se presta justamente ao contrário. Trata métodos de tortura como artifícios comuns à polícia secreta americana, a despeito do discurso de "liberdade" propagandeado pelos EUA. O que fica evidente na falta de conflitos morais dos agentes por violentarem presos e até reclamações quando os métodos são proibidos após pressões de parlamentares. A presença do exército americano até hoje no Oriente Médio prova como os métodos repugnantes não resolveram a questão. E surge a dúvida: o assassinato de outro povo é justificável?
Com enredo sóbrio e sem recursos pirotécnicos que dão "glamour" a filmes de guerra, "A Hora Mais Escura" tem como protagonista a agente da CIA responsável por "caçar" Bin Laden durante dez anos. O cruzamento de informações, pistas falsas e a obsessão colocam Maya (Jessica Chastain) acima do próprio presidente Obama nas ações que levaram à morte do terrorista. Uma mulher que desafia os chefes na CIA para seguir instintos e chegar ao homem mais procurado do mundo - um papel incomum no imaginário dos serviços secretos e mesmo em filmes de guerra. Ainda mais quando se pensa que a mulher que inspirou a personagem ainda atua na agência e teve o perfil de durona e obsessiva confirmado por soldados que participaram da missão real.
Se a captura de Osama realmente aconteceu da forma como foi filmada, representou uma sucessão de eventos quase inacreditáveis. O terrorista mais procurado do mundo ficaria recluso em uma mansão, perto de um centro comercial, por muito tempo; nem tentou oferecer resistência nem tinha meios para tentar fugir; se a fortaleza era à prova de investigação, também deveria ser um labirinto para possibilitar fugas.
A CIA fornecer informações privilegiadas à cineasta e ao roteirista Mark Boal torna o peso político de "A Hora Mais Escura" ainda maior, dada a importância que recebeu como instrumento de propaganda pelo governo americano. Justamente por isso, as críticas que recebeu de parlamentares e do Pentágono praticamente tiraram suas chances de ser o grande favorito do Oscar 2013 - concorre em cinco categorias.
Apesar de abordar uma história amplamente conhecida, o filme se sustenta em 157 minutos sem cair em clichês. Bem diferente do arrastado e previsível Lincoln, de Steven Spielberg, que por razões não-estéticas pode levar estatuetas que cairiam melhor nas mãos de Bigelow.
Ted é apenas um urso falante de uma obra de ficção. Mas causou a maior polêmica na última semana, quando o deputado federal Protógenes Queiroz (PCdoB/SP) tentou elevar a classificação indicativa do filme para 18 anos e até mesmo proibir sua exibição no Brasil.
É que, desavisado, o parlamentar levou o filho de 11 anos para ver o filme, recomendado para maiores de 16. E se chocou com cenas que mostram o ursinho falando palavrão, bebendo cerveja e fumando maconha.
O assunto repercutiu após Protógenes reclamar no Twitter, e virou um dos trending topics da rede social durante a semana. Motivo de piada, o deputado desistiu de tentar proibir o filme, foi criticado por especialistas e críticos de cinema e provocou até uma manifestação do Ministério da Justiça sobre o assunto.
O certo é que o quer era para ser apenas uma comédia nos cinemas se tornou um dos hits do momento. A polêmica só contribuiu para encher as salas e prolongar a exibição do filme, em cartaz também em BH.
Ted (2012) foi escrito e dirigido por Seth McFarlane. Conta a história de John (Mark Wahlberg), um garoto sem amigos que deseja, em uma noite de Natal, que o ursinho ganhe vida. O desejo se realiza e eles crescem juntos. Aos 35 anos, John não consegue largar o brinquedo, que se transformou em um “vida mansa” desbocado e usuário de drogas. Uma comédia nonsense com bons recursos narrativos e referências a ícones dos anos 80, como Flash Gordon, e participação especial da cantora Norah Jones.
Uma pedida divertida nos cinemas de BH, proibida apenas para menores de 16 anos e deputados pretensamente politicamente corretos. Em cartaz nos shoppings Boulevard, BH, Diamond, Itaú Power, Minas, Pátio Savassi, Cidade e Del Rey.
To Rome with Love Direção: Woody Allen Elenco: Roberto Benigni, Jesse Eisenberg, Penélope Cruz, Elen Page, Woody Allen Escrito por: Woody Allen EUA, 2012 Nota no IMdB: 6.3
Woody Allen presta homenagem à capital italiana a partir do título de seu novo filme, "Para Roma com Amor". E o que no princípio se apresenta como sobreposição de clichês de um turista com um tour pela cidade se revela uma história inesperadamente ousada e inspirada. Na verdade, quatro histórias.
A opção por quatro enredos distintos que não se tocam não confunde. Assim como o viajante que não consegue conhecer a fundo uma cidade em pouco tempo, cada uma permanece na superfície dos conflitos, sem prejuízos para o filme.
Há espaço para o próprio Allen se reinventar como o eterno-personagem-neurótico; desta vez, como o sogro aposentado que vai a Roma conhecer a família do genro e se surpreende com o sogro da filha, um agente funerário com talento para a ópera. Em outra frente, um casal do interior vive uma comédia de erros digna da Cinecittà ao se envolver com uma prostituta (Penélope Cruz) e um ator de cinema.
O terceiro enredo coloca um casal à mercê da amiga 'fatal', o que seria previsível até demais, não fosse o apuro de Allen ao escalar Alec Baldwin no papel nonsense que funciona como um subconsciente dos envolvidos. De quebra, sobram críticas a posturas de pseudo-intelectuais (como já havia em "Meia Noite em Paris"). Na quarta história, Roberto Benini vive um modesto funcionário que vê a vida transformada, sem razão, pelos holofotes dos paparazzi.
As críticas incrivelmente bem humoradas à arte contemporânea (nas cenas no chuveiro), ao absurdo da fama instantânea e despropositada e às estratégias pseudo-intelectuais são trunfos de um Allen que, como é dito por sua mulher, "não possui ego, superego e id, mas três id´s". Se em "Meia Noite em Paris" o diretor presta tributo à literatura da Belle Epóque, desta vez as lembranças se dirigem à opera e ao cinema italianos. Um justo agradecimento aos países que inspiraram Woody Allen a renovar sua carreira. Junto do 'inglês' "Matchpoint", e da saga em Paris, "Para Roma com Amor" é sua ideia mais fértil em solo europeu.
Medianeras Direção: Gustavo Taretto Elenco: Pilar López de Ayala, Javier Drolas, Ines Efron Escrito por: Gustavo Taretto Argentina, 2011 Nota no IMdB: 7.2
A arquitetura vertical da metrópole. Placas impessoais de longe, fissuras que resistem nos detalhes. O acúmulo da solidão, o temor de sair a rua, a escolha pelas escadas aos elevadores, o cotidiano conectado na internet sem o hábito de conversar pessoalmente. O desejo de encontrar alguém na multidão, o fato de ficar mais à vontade com bonecos e telas do que com pessoas. Pela reação dos últimos conhecidos, a preferência por ficar em casa. Medianeras são paredes laterais que dão para os prédios vizinhos e que, pela lei argentina, não podem conter janelas. Alguns as desafiam.
Isso é Medianeras (2011), filme do argentino Gustavo Taretto sobre a falta de comunicação de jovens acostumados com uma realidade de hipercomunicação. Mariana (Pilar López de Ayala) é arquiteta, mas trabalha como vitrinista e imagina histórias para os bonecos que veste. Divide o apartamento em Buenos Aires com manequins dobráveis e recebe deles respostas mais agradáveis do que nos últimos encontros com desconhecidos - e mesmo as respostas do último namorado não eram algo animadoras.
Martín (Javier Drolas) vive recluso no pequeno apartamento em Buenos Aires e se relaciona com o mundo a partir de um iMac. Sistemas de busca e chats são seu contato exterior. Vive com o cachorro da ex e precisa pagar uma mulher para levá-lo ao parque. Mas gosta de dar banho no pequeno animal e tem insônia.
Medianeras usa recursos gráficos para conotar encontros e desencontros em uma metrópole que perdeu o controle do planejamento. E, por isso mesmo, não consegue controlar as janelas que se abrem nas paredes mais insólitas e nas ervas que insistem em brotar nas fissuras menos esperadas. As alusões ao desenho "Onde está Wally" não são gratuitas e reforçam a necessidade universal de descobrir e ser descoberto. Com trilha discreta e narrativa sem percalços, parte de um argumento consistente para cercar, sem pressa, uma bela história.
Medianeras ficou cerca de cinco meses em cartaz no Brasil e foi um dos filmes argentinos mais vistos em 2011. Ganhou os prêmios de melhor diretor e filme estrangeiro no Festival de Gramado e foi a escolha do público em Berlim e Toulouse..E, com discrição e sem gravitar em torno de celebridades, o cinema argentino dá mais um drible nos colegas brasileiros.
Elenco: Gerard Depardieu, Giséle Casadesus, Patrick Bouchitey, Sophie Guillemin
Escrito por: Jean Becker e Jean-Loup Dabadie, baseado em livro de Marie-Sabine Roger
França, 2010
Nota no IMdB: 7.1
"Minhas Tardes com Margueritte" explora a descoberta do prazer pela leitura. Sobretudo, procura demonstrar que sempre há tempo para aprender ou se deixar cativar por estórias contidas nos livros. Ainda mais se o contexto da obra puder ser reconhecido no cotidiano do leitor.
Gerard Depardieu é Germain, que se acostumou, desde pequeno, a se maltratado pela mãe e por professores em público. Com pouca educação formal, mora em um trailer no quintal da casa da mãe e vive de bicos, como verdureiro ou ajudante de um bar. No bar onde seus amigos se reúnem todas as tardes, o espectador conhece integrantes de uma classe média baixa francesa que passam boa parte do filme entretidos com bebidas e jogos de cartas, dados e dardos.
Margueritte (Casadesus) é uma senhora culta, aposentada da Organização Mundial de Saúde (OMS) que conhece Germain em um banco de parque. O cuidado dele ao alimentar os pombos atrai a adorável senhora, que aos poucos passa a ler para ele clássicos da literatura francesa.
É notável a reação ao primeiro contato com Albert Camus, assim como a perplexidade ao descobrir a função de um dicionário - "onde há palavras demais, faltam outras". Assim como faltam palavras aos amigos quando Germain passa a usar no bar as comparações aprendidas com Margueritte.
Como valores aprendidos sem necessariamente uma educação formal - ou culta, Germain conserva um senso de atenção e ingenuidade ante os acontecimentos. Se "um bom leitor é um bom ouvinte", como defende Margueritte ao se deparar com um homem que mal sabe ler mas discute com abstração as histórias que ouve, há vários caminhos para a descoberta. Assim como Germain aprendeu a entalhar em madeira pombos como os que alimenta diariamente no parque.
O diretor Jean Becker construiu uma fábula com intensa significação, editada no ritmo acelerado dos modos de seus personagens nada aristocráticos. "Minhas Tardes com Margueritte", que recebeu menos atenção da crítica e das salas de cinema do que deveria e chegou com dois anos de atraso ao circuito brasileiro, se insere na boa coletânea de filmes sobre amizade na velhice, que merecem ser revistos de tempos em tempos - de "Conduzindo Miss Daisy" a "Elza y Fred" e "Depois Daquele Baile" - para lembrar que o cinema ainda carrega partículas de esperança e redenção.