segunda-feira, 16 de maio de 2011

Mary & Max: Uma Amizade Diferente

Mary & MAx: Uma Amizade Diferente (Mary and Max) 
Direção: Adam Elliot
Elenco: vozes de Philip Seymour Hoffman, Toni Collete e Eric Bana
Escrito por: Adam Elliot
França, Austrália, 2009
Nota no IMdB: 8.2




"Acho os humanos interessantes, mas tenho problemas para compreendê-los" - Max Jerry Horowitz


A amizade verdadeira acontece em situações improváveis: uma criança australiana envia uma carta com perguntas para um endereço aleatório e recebe resposta do destinatário misterioso: um americano de meia-idade. Em comum, a solidão. Mary não recebe atenção do pai, ocupado com a taxidermia, nem da mãe, distante da filha e próxima do álcool. A curiosidade dos primeiros oito anos de vida instiga a mente da menina, bastante madura para a idade. Max vive em um apartamento em Nova York, conversa esporadicamente com uma vizinha idosa e só convive com o peixe que cria. Viciado em chocolate, também tem compulsão por qualquer outra comida e sofre com o constante ganho de peso. Ele convive com a Síndrome de Asperger, que provoca crises de ansiedade a qualquer situação corriqueira que fuja ao seu planejamento metódico do cotidiano.

A sinopse já despertaria o interesse pela história, mas um outro fator aumenta a curiosidade pelo resultado: ao invés de atores, estamos diante de uma animação com conteúdo adulto. Philip Seymour Hoffman dá voz ao protagonista, Max Jerry Horowitz, enquanto Bethany Withmore e Toni Collete interpretam Mary Daisy Dinkle da infância à idade adulta. Os personagens são feitos com bonecos de massinha e os movimentos sofisticados e a riqueza de detalhes nas expressões demonstram o apuro da equipe realizadora, conduzida pelo diretor e roteirista Adam Elliot, que trabalha com simplicidade e dispensa exageros tanto no conteúdo quanto na forma.  






Construído em tons de cinza e marrom - somente - o longa carrega um espírito melancólico, condizente com os sentimentos dos personagens. Distantes da família dentro de casa e de todos em uma metrópole, respectivamente, Mary e Max só encontram correspondência em alguém distante, inserido em outra realidade e sentem, enfim, o sentido e o valor de uma amizade verdadeira e compartilham dúvidas e diferenças, mas nunca indiferença.   






Outra surpresa do roteiro é mostrar o crescimento dos personagens. Mary casa-se e inicia uma vida acadêmica para estudar a síndrome que acomete o amigo, que com o passar dos anos continua o mesmo, exceto pelo aumento dos medos e manias. Tão próximos sem nunca terem se visto, os dois trocam cartas e presentes ao longo da vida e reconhecem na sensibilidade e espontaneidade do outro os próprios sentimentos, antes desconhecidos em suas relações corriqueiras. 

Uma produção australiana de 2007 a que tive acesso pelo correio, como presente de uma amiga que nunca vi, apesar de nos conhecermos pelo que escrevemos. Muito pouco em comum com a história - mas ainda assim temos nossas questões - não é curioso?

ps: os tons de cinza são quebrados por elementos bem escolhidos na composição das cenas, como no pompom vermelho que Max usa na cabeça quando está bem humorado. 
pps: demorei para assistir e não consegui ver tudo de uma só vez, mas valeu ter esperado.
ppps: desenhos não costumam atrair minha atenção, mas este realmente me surpreendeu. 



quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Concerto (Le Concert)

O Concerto (Le Concert) 
Direção: Radu Mihaileanu
Elenco: Mélanie Laurent, Alexeï Guskov, Dmitri Nazarov, François Berléand
Escrito por: Radu Mihaileanu, Héctor Cabello Reis, Thierry Degrandi, Mathew Robins, Alain-Michel Blanc
França, Bélgica, Rússia, Itália, Romênia, 2009
Nota no IMdB: 7.5




A obsessão de um maestro pela execução perfeita do Concerto para Violino em Ré Maior (op.35), de Tchaikovsky. Eis o ponto crucial de "O Concerto" (Le Concert), que envolve franceses e russos em camadas de comédia e drama ao focalizar a Orquestra Bolshoi nos anos 80 - portanto, antes da queda da URSS - e o reencontro de músicos com os palcos após décadas ausentes por motivos políticos. 


Andreï Filipov (Alexeï Guskov) é 'o maestro', lenda viva da regência que foi obrigado a abandonar os palcos pela política do ex-presidente soviético Brejnev, por ter mantido músicos judeus na Orquestra 30 anos antes. Longe das apresentações, Filipov trabalha na limpeza da Orquestra, até que um fax cai em suas mãos: um convite para levar o Bolshoi a Paris. Em poucos dias, o 'maestro' deve reunir na surdina fenômenos da música, distantes há décadas dos palcos, para a execução da peça que o persegue há anos. Fatos reais do declínio da URSS encravados em ficções condizentes com o momento histórico, em uma narrativa que não se contradiz e se desenvolve.






Para a apresentação, o 'maestro' exige a presença da solista de renome internacional Anne-Marie Jacquet (Mélanie Laurent), spalla - o violino principal de uma orquestra - que interpreta cenas de maior tensão: os encontros pré-concerto e as implicações entre passado/futuro da própria vida. A violinista também convive com o tabu em relação à execução de Tchaikovsky e com a busca do arrebatamento e da harmonia que acometem grandes momentos de inspiração



Estereótipos à parte, o comportamento dos russos em Paris garante boa diversão, numa co-produção europeia independente, com condução apurada e leve do diretor, sem perder a complexidade do contexto político nem simplificá-lo no universo do filme. Tons sóbrios sustentam a direção de fotografia, com destaque para tons de cinza, sem no entanto criar uma atmosfera sombria. Construído linearmente, "O Concerto" faz uso de efeitos embaçados em flashbacks quando remete ao passado, como quando Filipov relembra o concerto derradeiro que significou sua aposentadoria precoce dos palcos. Com fusões de imagens e flashes, dá a conhecer o futuro dos personagens em breves intervalos da linearidade. 




A busca incessante pelo arrebatamento por que passa o ser em contato com a música é o centro do filme. Universal, além de qualquer contexto político, o sentimento aguçado pelo som e provocado pela necessidade de abstração que têm o homem move músicos virtuosos e o ouvinte comum e ultrapassa qualquer tentativa de explicação. Como justifica a certa altura Filipov: "A orquestra é um mundo. Cada um contribuindo com seus próprios instrumentos, seu talento. Pelo tempo de um concerto estamos todos unidos e tocamos na esperança de chegar a um som mágico: a harmonia". 


"O Concerto" foi finalizado em 2009 e só agora chega em Belo Horizonte, onde é exibido em apenas uma sala, em um horário somente, no meio da tarde. Pouca visibilidade para o filme que provavelmente seja o mais interessante em cartaz na cidade. 


Teve vontade de ouvir os atrativos do Concerto para Violino em Ré Maior (op.35) de Tchaikovsky? Permita-se ser conduzido. 



sexta-feira, 15 de abril de 2011

Sem Limites (Limitless)

Sem Limites (Limitless)
Diretor: Neil Burger
Elenco: Bradley Cooper, Robert de Niro, Abbie Cornish, Johnny Withworth
Escrito por: Leslie Dixon
EUA, 2011
Nota no IMdB: 7.4 (bebeu, IMdB??)






"Sem Limite" (Limitless) será esquecido rapidamente - se é que será lembrado alguma vez. Em cartaz no Brasil em abril de 2011, já podia ter abandonado as salas sem deixar saudades. Algumas razões para o filme não funcionar:

1 - O desenvolvimento não cumpre o prometido pelo enredo - Um escritor com bloqueio criativo descobre substância capaz de ativar sua memória a níveis incríveis. Essa ideia até daria um bom filme, mas não neste. Se desenvolvesse a trinca inspiração/criatividade/bloqueio, o diretor Neil Burger poderia ter criado uma história instigante sobre a dificuldade de transformar em palavras uma abstração qualquer. Mas "Sem Limites" prefere o caminho fácil da droga impossível que ativa 100% do cérebro humano e forja seres com memória total - até o fim do dia ou até a próxima dose. 

2 - Transformação instantânea e ostentação barata - O pretenso escritor Eddie Morra (vivido por Bradley Cooper) larga o ofício quando percebe as facilidades oferecidas pela nova droga. Por que se dedicar a abstrações literárias e uma carreira pouco reconhecida se se tornou possível, para quem mal sabia fazer contas, investir na bolsa de valores como um prodígio? Discutir investimentos e operações de risco com executivos experientes, impressionar diretores e multiplicar fortunas, sem nenhuma consequência no desenrolar da história, é no mínimo inverossímil. Ganhar dinheiro infinitamente e não se importar em como gastá-lo; conquistar cargos influentes e impor pelo poder: é só isso que "Sem Limite" tem a dizer?  

3 - Falta de um conflito verossímil - Quando a história parece tomar novo rumo, o roteiro se perde e revela a maior fraqueza de um filme: a falta de conflito para sustentar a história. Se a ex de Eddie Morra assume que teve problemas ao parar de tomar a droga, já que o corpo dela se tornou dependente e ao mesmo tempo não suportava os efeitos da substância, era de se esperar algo parecido com o protagonista. Mas essa parece ser apenas mais uma cena insossa e sem conexão entre tantas outras. 



4 - Projeção e aprendizado instantâneo - Se envolveu em uma briga de rua? Basta lembrar de golpes de luta na infância. Não, você não era atleta, apenas assistiu à luta na TV. Isso é o bastante para bater sozinho em uma gangue, de acordo com a lógica da droga que dá 100% de capacidade ao cérebro. Entrou em um restaurante francês? Impressione sua companhia ao conversar na língua estrangeira com o garçom. Você nunca pisou na França, mas isso não tem importância. É a lógica que atravessa o filme o tempo todo.

5 - De Niro no lugar errado - Robert de Niro, no papel mais infeliz dos últimos anos, seria um empresário influente que se impressionaria pelo talento de Morra. Na realidade, é apenas um dos donos do mundo que nem desconfia da supercapacidade do novo pupilo. E, quando descobre a verdade, apenas participa do jogo de poder.

6 - Roteiro recortado - A roteirista Leslie Dixon deve ter sido a mais insatisfeita com a edição final do filme. Porque, pelos saltos que a história toma, parece claramente um filme bem imaginado que foi mal realizado pelos produtores. Parece um argumento inspirado que precisou ser recortado, retorcido, rasurado e mal colado por conta de pressões da indústria, com a desculpa batida de se tornar "mais comercial". Isso é muito comum em filmes considerados "cabeça", que precisam ser mudados sem perder o fio original. Prefiro pensar isso do que assumir a falta total de inspiração de Dixon. Não conheço o livro de Alan Glynn, no qual o roteiro foi baseado. Espero que a película não tenha sido fiel a ele. 

Nessa hora e quarenta e cinco minutos de cinema, pouco pode ser apontado de positivo. O começo do filme impressiona e deixa o espectador com boas expectativas: as tomadas iniciais, com a câmera em movimento em aceleração pela cidade, na perspectiva da primeira pessoa, rompendo barreiras físicas naturais, deixam a impressão de que teremos pela frente uma obra estética ao menos curiosa. As letras e números caindo do teto no momento da inspiração definitva tentam ser um convite a isso. Não valem nem a tentativa. Quando se tenta argumentar a favor do fillme, a cena do 'vampiro' salta à lembrança. Nessa hora amigo, mesmo usando naturalmente apenas 20% do cérebro, não há quem ainda procure encontrar qualidades em "Sem Limites". 



sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Origem (Inception)

ou: um sonho dentro de um sonho, dentro de um sonho, dentro de um sonho.


A Origem (Inception)
Diretor: Christopher Nolan
Elenco: Leonardo di Caprio, Ellen Page, Ken Watanabe, Marion Cotillard, Tom Hardy
Escrito por: Christopher Nolan
EUA, 2010
Nota no IMdB: 8.9






Christopher Nolan, há alguns anos apenas um diretor e roteirista pouco conhecido, conseguiu convencer produtores a levar Batman de volta aos cinemas após o fracasso de "Batman e Robin" (1997). Em 2005 estreou o elogiado e bem-sucedido "Batman Begins", com Christian Bale no papel principal tratando de dilemas como medo e dualidade, temas até então inexplorados na série. Três anos depois, colocou Heather Ledger como o Coringa em um papel marcante em "Batman: Cavaleiro das Trevas", o último da vida do ator. Um diretor afeito a produções experimentais  comandou as sequências que se tornariam sucesso de público e crítica sobre o heroi dos quadrinhos. Os produtores que relutaram em recriar o universo de Gotham City após o hiato de oito anos desde o filme de Joel Schumacher não se arrependeram. Estavam em boas mãos. 

Nolan já tinha apresentado seus métodos em "Amnesia" (Memento), no qual a linearidade da história  é abandonada para acompanhar o drama que acomete o protagonista, vivido por Guy Pearce, um homem que perde a capacidade de adquirir novas memórias.

A mais recente produção de Nolan, entretanto, atinge um extremo narrativo singular, que trafega novamente entre as bordas da memória e do real. "A Origem" (Inception) transporta o espectador para realidades paralelas construídas dentro dos sonhos dos personagens. Mais que isso, os próprios sonhos são intrincados em outros sonhos, deixando para quem assiste a surpresa da descoberta de elementos concretos para distinguir, de fato, um sonho do outro e da realidade. 




O objetivo disso tudo não é nada politicamente correto. Leonardo di Caprio (Cobb) constrói realidades paralelas para roubar ideias enquanto as vítimas são induzidas ao sono. Até que recebe uma proposta para inverter a operação: ao invés de retirar uma ideia, deverá plantá-la, para mudar os rumos de disputas empresariais. Este fato traz à tona acontecimentos trágicos da vida de Cobb, que ajudam o espectador a entender as motivações e métodos de trabalho do personagem. 

Para o diretor/roteirista "construir" mundos paralelos dentro dos sonhos, utiliza uma equipe de especialistas para recriar realidades. Há o químico responsável pela sedação, os atores do sonho e a arquiteta (Ariadne, vivida por Ellen Page, em atuação destacada) responsável por desenvolver labirintos (figurados) e as cidades (literais) que são retratadas. 

Com fôlego narrativo impressionante, há que se destacar como o filme analisa a relação entre tempo e espaço (a cada nível de sonho, a sensação é distinta, bem como a percepção da duração dos acontecimentos) e também as descobertas da arquiteta. Quando percebe que em uma realidade virtual tudo pode desobedecer às leis físicais, Ariadne literalmente enverga prédios, ruas e nossos sentidos, em tomadas de tirar o fôlego. 





"A Origem" ganhou quatro Oscars em 2011 - nas categorias técnicas de melhor Fotografia, Efeitos Visuais, Edição de Som e Mixagem de Som.  O filme mais intrigante do ano merecia mais, inclusive por ter concorrido como Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora Original e Direção de Arte. 

sábado, 19 de março de 2011

O Grande Desafio (The Great Debaters)

O Grande Desafio (The Great Debaters)
Diretor: Denzel Washington
Elenco: Denzel Washington, Nate Parker, Jurnee Smollett e Denzel Whitaker
Escrito por: Robert Eisele e Jeffey Polo
EUA, 2007
Nota no IMDb: 7.6




Denzel Washington em um drama racial. Desta vez, além de protagonista, como diretor. Em um papel quase oposto ao furioso Malcom X (de Spike Lee, 1992), quando viveu o ativista radical que pregava a violência e a mobilização incansável na luta pelos direitos civis dos negros.

“O Grande Desafio” (The Great Debaters) passou batido em 2007, mas devia ter recebido mais atenção. Chegou ao Brasil direto em DVD, sem exibição nos cinemas. Uma pena. É baseado na história verídica de Melvin Tolston (Washington), poeta e professor do pequeno Wiley College, no Texas dos anos 1930, um barril de pólvora para quem, a despeito da formação cultural, não tinha direitos por causa da cor da pele. Tolston reúne estudantes para a equipe de debates estudantil e utiliza métodos nada convencionais para ensiná-los e cativá-los. Henry Lowe (Nate Parker), Samantha Booke (Jurnee Smollett) e James Farmer Jr. (Denzel Whitaker) são os pupilos prodígios de Tolston numa jornada de expressão das imensas habilidades intelectuais e no descobrimento das próprias fraquezas.




O tema dos debates, mais que sua apresentação, afinal, forma a espinha dorsal do argumento. Questões caras à época são tratadas pelos estudantes e envolvem a defesa/negação de políticas econômicas e culturais, referentes à situação dos negros nos EUA na primeira metade do século 20. A inclusão em Universidades e a igualdade civil são mostradas do ponto de vista de gente comum que não tinha direitos garantidos por lei nem legitimação cultural para tanto, situação irracional que perdurou, em termos legais, até a metade do último século na nação mais influente do planeta.

Mais duas questões que merecem nota: a cena com citações a Gandhi e Thoreau ("A desobediência civil"); e as passagens em que brancos e negros defendem um ponto de vista para o bem comum, alertando que a igualdade de direitos civis não se conquista devolvendo o preconceito justificado pela opressão anterior. 


segunda-feira, 7 de março de 2011

Bruna Surfistinha

Bruna Surfistinha
Diretor: Marcus Baldini
Elenco: Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Critina Lago, Fabiula Nascimento.
Escrito por: José de Carvalho, Homero Olivetto e Antônia Pellegrino.
Nota no IMDb: 6.1





O fim-de-semana de estreia de "Bruna Surfistinha" nos cinemas levou o filme à segunda melhor bilheteria do ano para os primeiros dias em cartaz (considerando também filmes americanos). 400 mil pessoas assistiram ao longa de Marcus Baldini nos três primeiros dias, representando um marco no cinema nacional. Principalmente se for levado em conta que a produção já tem a sétima melhor bilheteria da Retomada do cinema brasileiro (a partir do fim dos anos 90), mesmo sem a chancela da Globo Filmes. Talvez uma das únicas bilheterias de sucesso sem o apoio de mídia da Globo Filmes, que costuma garantir o sucesso de muitas produções. 

À parte questões empresariais, se você já conhece a história de Raquel Pacheco, menina de classe média que larga a vida na casa dos pais para ganhar dinheiro como garota de programa, não vai se surpreender muito com o filme. Principalmente se já tiver lido o "Doce Veneno do Escorpião", livro biográfico escrito pela protagonista em 2005,  com o jornalista Jorge Tarquini, no qual detalha razões para suas escolhas e o contato com diversos clientes. Está tudo ali: a indiferença com a família adotiva - principalmente com o pai e o irmão -, a falta de amigos e de interesse na escola - e conflitos nos primeiros contatos com a sexualidade -, a decisão de virar garota de programa durante uma busca por emprego e a dificuldade para se habituar à profissão. 



Deborah Secco, no papel de Bruna, nome adotado por Raquel - que mais tarde ganharia a outra alcunha por ser a Bruna, "aquela que parece uma surfistinha", manda no filme. Todas as atenções estão voltadas para ela o tempo todo, e a atriz se sente bastante à vontade com isto. Mesmo em cenas constantes de nudez e sexo, a Deborah demonstra confiança e segurança para conduzir o papel. Até em cenas mais fortes, quando a garota exagera nas drogas, Deborah sabe transitar neste universo e não deixa o ritmo do filme cair. Atuação muito firme. 

O objetivo é o mesmo de qualquer garota que se prostitui – ganhar dinheiro. Mas, por nunca ter passado fome, por ter sido garota de classe média a abandonar o conforto da casa dos pais para fazer programas, há um interesse das outras mulheres por entender os motivos de Bruna e uma vontade de clientes por conhecê-la. Com a fama que conquista no meio, faz um blog que vira febre na internet. Ao comentar a atuação dos homens e expor seus pensamentos, revela que uma garota de programa, afinal, tem expressões próprias e sabe, também, ouvir quem a paga. Boa parte dos que a procuram só querem atenção: não só sexual, mas como fuga da vida que levam.



Para quem pensa em Bruna Surfistinha como um caso limite, de uma garota que largou tudo para viver de sexo por prazer ao que fazia, o filme desmascara essa visão. Ela está lá por dinheiro. Claro que teria oportunidades na vida que suas colegas mais pobres nem sonhariam, mas a expectativa por ganhar dinheiro rápido a fez tomar tal decisão. E mantê-la a qualquer custo. As garotas com quem convivia faziam questão de dizer que, à parte os motivos que as levaram para a prostituição, teriam outras profissões logo que pudessem largar a sobrevivência pelo sexo. A decadência de Bruna acompanha a trajetória com as drogas, em especial, a cocaína. Todo o dinheiro ganho se esvai com dividas em compras luxuosas e com o pó, numa realidade bem conhecida nos grandes centros.

A degradação moral é escancarada em cada cena – não no sentido moralista da questão, mas na exposição a condições adversas e à perda da intimidade a que mulheres se sujeitam em busca de um sustento – mas não é explorada pela personagem. Tudo é tratado com bastante naturalidade, mesmo em momentos críticos que gerariam questionamentos sobre suas escolhas. A visão do filme – condizente com a do livro - não carrega este conflito; sua decisão já foi feita e Bruna deveria ir até o fim. Ou até quando quisesse parar, abandonar o personagem e começar uma nova vida, uma nova Raquel, anos depois. Todo mundo sabe que isso foi feito e, a obra conta, em parte, quais caminhos ela traçou. 


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

And the Oscar went to.....

....to Anne Hathaway e Mila Kunis!!





O Oscar 2011 foi o ano dos favoritos. Poucas surpresas na 83ª edição da premiação.
O mundo inteiro já sabe que foi o ano do "Discurso do Rei".
Melhor Filme, Melhor Diretor (Tom Hooper) e Melhor Ator (Colin Firth). E ainda Melhor Roteiro Original (escrito por David Seidler).
Natalie Portman, favorita, foi escolhida como Melhor Atriz, por "Cisne Negro".
"O Vencedor" também mereceu destaque. Melhor Ator Coadjuvante (Christian Bale) e Atriz Coadjuvante (Melissa Leo).
"A Rede Social" ganhou como Melhor Roteiro Adaptado (Aaron Sorkin), Trilha Sonora e Edição.
"A Origem" ganhou prêmios técnicos. Fotografia, Mixagem de Som, Edição de Som e Efeitos Visuais.
"TOy Story 3" foi premiado como Melhor Canção Original (We belng togheter) e Melhor Animação.
"Lixo Extraordinário", cotado pela crítica especializada para o prêmio de Melhor Documentário, perdeu para "Trabalho Interno", que trata da crise financeira que assolou os EUA há dois anos.
"Alice no País das Maravilhas" ganhou o Melhor Figurino e Direção de Arte.
Outros premiados:
Curta de Animação - "The Lost Thing"
Curta Metragem - "God of Love"
Documentário Curta Metragem - "Strangers no More"
Maquiagem - "O Lobisomem"


"Bravura Indômita", concorrente em nove categorias, não foi escolhido em nenhuma. Mas teve o mérito de levar os Faroestes de volta aos holofotes e marcar a volta do gênero à premiação. 127 horas, com seis indicações, também não recebeu a estatueta.


O Oscar é um festival que privilegia filmes lançados perto do fim das inscrições e que se esquece de boas produções lançadas no começo do ano? Quem merecia ter sido indicado este ano mas ficou de fora? Você gostou dos vencedores?